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A Escotilha do Chieftain: Discursos Inflamados e o "The Death Traps"

Hoje abordamos dois tópicos breves.

O primeiro é o que eu penso que somente pode ser considerado um discurso inflamado, ou pelo menos um descarregar de frustrações, na documentação do Conselho de Caça-Tanques de janeiro de 1945, dado que acho que é pouco provável que a nota tivesse chegado à pessoa de quem se estava falando.

Tudo começou com este recorte de imprensa no San Antonio Light. O Conselho de Caça-Tanques ficou, provavelmente, a par dele, simplesmente pela proximidade geográfica de Camp Hood:

Chegou aos ouvidos do Presidente do Conselho, COL Montgomery, que o reencaminhou para o Major Elston, também no Conselho, somente com a nota “Por favor, comente”.

E foi isso mesmo que o Major fez:

COL RCM:

1. O fato de os tanques alemães serem, geralmente, mais pesados que o nossos levou, evidentemente, alguns escritores a assumirem que “mais pesado” significa “melhor”. Mas o maior tanque não é, necessariamente, o melhor. Carnera era maior que Dempsey. O melhor tanque é aquele que sai vitorioso.


[Nota do Chieftain: A imagem acima de Carnera e Dempsey, com uma mulher aleatória servindo de elemento de escala, está aqui porque presumo que muitos de vocês não fazem idéia de quem eles eram. Eu não sabia. Tenho a impressão de que os militares da década de 1940 estavam mais a par destes assuntos.]

2. Se o tamanho fosse um medidor de valor, então o alemão Ferdinand seria o melhor tanque na face da terra. Na verdade, este monstro lento raramente conseguia atingir mais do que 8 milhas por hora fora de estrada e, entretanto, deixou de ser produzido.

3. O Tiger, com 56 toneladas (62 quando em ação), e o Panther, pesando 46,5 toneladas, montam ambos um canhão de 88mm e blindagem do casco de 102mm a 120mm. Eles são menos manobráveis quer do que os médios, quer do que os caça-tanques AAPs dos E.U.A. Em todos os teatros de guerra, encontros entre tanques alemães e caça-tanques AAPs americanos mostram resultados que favorecem, consistentemente, o equipamento dos E.U.A.

4. Como exemplo, o XII Corpo acaba de reportar os resultados globais de seus sete Batalhões de Caça-Tanques contra tanques alemães de todas as dimensões até 2 de novembro de 1944. Esses resultados são:

N.º de tanques alemães destruídos por caça-tanques - 125
N.º de caça-tanques destruídos nas mesmas ações - 25
Rácio: 5 para 1, a favor dos E.U.A..

5. Esta comparação é bastante comum em outros relatórios. Isto dificilmente representa uma “situação vergonhosa de inferioridade de armamento”. Foi pedido ao Senador Johnson que se acalmasse por tempo suficiente para explicar porque é que, se o equipamento alemão era tão superior ao americano, ele tinha estado recuando continuamente desde El Aladein? Como é que ele explica a capacidade do armamento americano “escandalosamente inferior” expulsar todos os blindados alemães de África, Sicília, Itália e França?



[Senador Johnson]

6. Na verdade, blindagem média foi uma escolha sábia para os E.U.A., em vez de blindagem pesada, porque tiveram de desembarcar em praias hostis em todos os quatro países. Tanques de 60 toneladas não eram práticos para tais desembarques. Os alemães, estando em casa e sem operações anfíbias à vista, puderam usar seus gigantes. Sendo maiores que os médios americanos, naturalmente, conseguiam montar armas maiores. Sua blindagem espessa sacrificava alguma mobilidade e teria sido um peso nos puxando para baixo na Praia de Omaha.


[Nota do Chieftain: Não foi tirada na Praia de Omaha]

7. Repare que a afirmação que exaltou o Senador Johnson foi de que os tanques alemães são “mais pesados, e com melhor blindagem e armamento. Aqui, o adjetivo “melhor” é usado livremente, destacando todas as virtudes do peso e ignorando suas desvantagens.

8. A afirmação de que os canhões americanos são demasiado leves para derrubar os tanques pesados alemães sem perdas excessivas não é verdadeira. (Veja ambos os relatórios da Brigada de Caça-Tanques, do General Ernst)

9. A afirmação de que o canhão alemão de 88mm é igual ou superior a qualquer canhão americano é verdadeira. Disparando quer seus projéteis de 10,16 kg a 981,46 m/s (agora em uso), quer seus projéteis APCR de 7,26 kg a 1150,62 m/s (provavelmente, ainda em desenvolvimento), este canhão tem uma energia de saída de 4.745 MJ. Os próprios canhões de 90mm dos E.U.A. disparando quer com os projéteis já existentes de 10,93 kg a 865,63 m/s, quer com os projéteis APCR (ainda em desenvolvimento) a 1188,72 m/s, geram apenas 4 135 MJ. Contudo, uma comparação entre o canhão americano de 76mm e o alemão de 76,2mm mostra um superioridade clara da arma dos Estados Unidos.


Penso que conseguimos encontrar algumas coisas que não batem certo na análise acima, mas acho que o propósito geral é claro: O caminho que o Exército dos E.U.A. havia seguido, com o equipamento e as táticas de que dispunha, estava funcionando.

E isso me leva ao outro tópico. Death Traps, de Belton Cooper. Continua sendo mencionado nos fóruns, por isso acho que mais vale clarificar minha posição de uma maneira mais formal. O livro, frequentemente encontrado, está bem escrito, é de leitura fácil e oferece uma boa perspetiva sobre as idéias e o trabalho de um oficial júnior trabalhando em uma unidade de campo. Eu recomendo que o leiam.

Posto isto...

Death Traps não é uma fonte fidedigna. Não o cite. Ou o programa do History Channel baseado nele.

A questão é a seguinte: Death Traps é uma autobiografia e não um trabalho baseado em uma pesquisa histórica. Trata-se das memórias e perceções como o homem as viu, descrita cerca de 50 anos depois de terem acontecido. Isso leva a dois problemas:

Em primeiro lugar, o da perceção. A premissa do livro, mesmo o título, é que os M4s eram caixões sobre esteiras, e eram frequentemente destruídos. Ele tem essa idéia com base em todos os M4s que foram trazidos para reparação na sua oficina, depois de serem derrubados. E ele não viu quaisquer veículos alemães sendo derrubados, pois ninguém os trouxe até si para serem reparados. E ele não viu quaisquer veículos alemães sendo derrubados, pois ninguém os trouxe até si para serem reparados. Para alguém que praticamente só viu Shermans destruídos saindo das batalhas, não admira que tenha a perceção de que o tanque era problemático.


[Qual desses dois veículos você acha que Cooper deve ter visto depois dessa batalha?]

Em segundo lugar, o autor não tenta sequer distinguir o que viu do que ele supôs a partir do que ouviu dizer. Ele apresenta como fatos coisas que, muito simplesmente, não são verdade, o que pode ser mostrado, em muitos casos. Não foi feita qualquer tentativa de buscar ou identificar fontes para as afirmações que ele faz. Cabe ao leitor determinar a precisão do conteúdo do livro.

É provável que aquilo que ele viu pessoalmente estejam, de certa forma, próximas da realidade. Mas ele não tinha conhecimentos suficientes para tecer tais afirmações.

O livro de Cooper é o exemplo mais egrégio de citar uma autobiografia e levar isso mais a sério do que deveríamos, por isso eu só o uso como um ponto de aprendizagem. Autobiografias menos controversas, como a Tigers in the Mud, de Carius, ou Commanding the Red Army's Sherman Tanks, de Loza, devem ser vistas exatamente da mesma forma mas, para ser justo, essas são bem menos exageradas e têm maior valor facial.

Vou terminar meu discurso agora. Aqui está o Bob, para levar você até ao tópico no fórum.


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